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segunda-feira, 6 de julho de 2015

ora

sem hora, virou e saiu afora

voltou agora, para dizer q a saudade matava, por ora

terça-feira, 22 de julho de 2014

sim. no mundo das ideias, a luxúria não é pecado. pecado é não lambusar-se delas.

terça-feira, 8 de abril de 2014

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Rímel


Andava. Braço direito igual a um pêndulo e o outro elevado na altura da boca. Fumava compulsivamente. Caminhava, pele feita de titânio: entortaria a ponta de qualquer punhal. As lâminas escondidas entre os dedos gritavam RES PEI TO. Exigia. Dona de um corpo expurgado por homens equinos que lhe rasgaram as têmporas, gastaram sua genitália, avassalaram sua alma. Respeito.

Naquele domingo, o que foram as asas de galinha recheadas com alho, coentro e cebolinha? Especialidade de Neiva, a mais velha. Não conheço o sabor dominical. Nunca soube. Eram os dias mais rentáveis da semana, dia de caminhoneiro viajante descansar por mais tempo. Dia de servir carne de galinha criada no quintal. Dia de gozar a Deus sobre os filhos esposas e famílias. Ao homem, sentinela de prazeres egóicos. Nada mais. Inácia, que hoje o tem como filho, aconselha: coma, a costela vai esfriar. Não tenha medo, não creio que Eva nasceu de Adão. Amor não escolhe lado, filho. Seja completo, feliz.

No pano de prato surrado marcando o calendário de um ano passado, Edivaldo limpou do rosto o rimel que desenhava sua pele.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Anti idade


Que luz sincera. Quando parei em frente ao espelho, pensei até que nem precisava ir à terapia naquela tarde, de tanto que de mim extraia a claridade. Alguns cravinhos que não tinha percebido, umas pintas novas, alguns pelos esquecidos na sobrancelha. Esse cabelo que não cresce! Até que não tô muito velha... Apesar de reclamar demais da vida. Devia me preocupar menos com as contas: TV a cabo que nunca tem um filme bom passando. Ainda não levei meu histórico na faculdade. Todos os dias penso que tenho que terminar esse curso de jornalismo. Carrego essa preocupação [como se estivesse andando pelo deserto com uma mochila de 100 quilos nas costas], tem uma pilha de louça pra lavar. Quem sabe se eu tivesse uma máquina de lavar louças não resolveria pelo menos esse problema? Tô velha demais pra minha idade. Mas a pele até que tá boa ainda. Só vou admitir que preciso usar Renew Anti Age depois dos trinta. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um bloco de texto


Se sentia rachada, com a cabeça estourada na sarjeta como naquelas cenas de filmes que o cara pega o outro numa briga, faz ele deitar na pirambeira da calçada, abre a boca dele na sarjeta e chuta a cabeça dele. Não tem erro. Estoura a boca, quebra tudo. É assim que se sentia, meio surrada demais pra um dia chuvoso, cheio de nuvens, nublado, chato pra caramba com o café gelado.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Invasão


Às vezes, a vida vem e me invade escandalosamente. A simples consciência disso me emociona e eu choro. Mas não é um choro de alegria, tampouco d tristeza. É como aquelas chuvas de verão, que desaguam como quem quer lavar as ruas, aguar as pastagens ou dar um pouco de água pras gentes que tem sede. Depois, ela segue seu rumo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Poema receita - Torta da Felicidade


Alho poró, cogumelo, cebola picadinha e pimenta preta em pó
Junte o tomate tinindo de vermelho aos demais temperos:
Tomilho, sálvia e sal

Adicione à esta mistura colorida a carne moída
Não seja ponderado com o molho inglês
Tampe a panela, aguarde uns quinze minutos e experimente uma vez

Para a massa, basta misturar a farinha, a manteiga e sovar com firmeza
Deslize gentilmente na forma e preencha com o recheio com sutileza
Por fim, salpique com queijo brie e leve ao forno

Em 20 minutos, está pronta a torta, antônimo da tristeza

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Uma outra safra

Estômago vazio
Fome de contentamento
Empanturrado de incertezas

Farta de idealizações
A safra dos novos projetos
Nunca deixa a desejar

Uma grande pena
Que a estação das realizações
Tarda chegar



terça-feira, 2 de julho de 2013

Raio X

A radiografia expõe tudo
Que tem dentro do corpo da gente

Só não mostra um
Registro do inconsciente

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Segunda

Ô, chuva!
Lava o que tem de lavar
Vai-te embora
Só não me conduza

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Haikais confessionais

I

O medo povoa
Se o pensamento não voa


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II

A lua vivia
Quando o sol jazia

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Gasto

O que fazer
para as minhas frases
Algum efeito ter?

Literatura estrangeira
Ou procurar inspiração
Embaixo do pé de laranjeira?

Tanta intelectualidade
Para ficar olhando pela janela
Toda essa passarela
De pedra, gente, pé e pó

Tanta ideia para ficar
Confortavelmente apoiada
Sobre essa escrivaninha surrada

Tanta indisposição e reflexão
Se prendem a esse chão
Pouco pisado por um coração

O que pode faltar 
É a coragem de gritar
Então melhor no imaginário [sem tocar]
Se agarrar

Porque dentro dos livros
Eles [ os sentimentos]
Sabem a hora de se esfarelar

sábado, 1 de junho de 2013

Ressaca


Acordei com dor de cabeça
Fui até a cozinha
Já era hora da sobremesa

Não entendi
Vi todos à mesa
E percebi

Que
a noite passou
mergulhei no sono

Sonhei que acordava
E já era dia, a hora corria
Eu nem via

Enquanto isso
Algo no dia se mexia
Era a vida que me fugia

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um repente pro contemporâneo

Mexe com o ego de muito nego
Os atos políticos
Se vistos por um viés psicanalítico

Nos últimos dez anos
A massa passa menos fome
Até a empregada come danone

O classe média tira visto pro estrangeiro
E junta mais dinheiro

Mas é claro que rico vai reclamar
Ele não é mais único que tira foto no mar

E a doméstica exige a carteira assinada
Pra parar de chão esfregar


segunda-feira, 13 de maio de 2013

A Gullar


Algumas manifestações já foram magistralmente feitas, como este poema de Ferreira Gullar, sobre a incansável dissertação da poesia.

A Poesia

Onde está
a poesia? Indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal.

Cientistas esquartejam Puchkin e Baudelaire.
Exegetas desmontam a máquina da linguagem.
A poesia ri.

Baixa-se uma portaria: é proibido
misturar o poema com Ipanema.
O poeta depõe no inquérito:
Meu poema é puro, flor
Sem haste, juro!

Não tem passado nem futuro.
Não sabe a fel nem sabe a mel:
É de papel.

Não é como a açucena
Que efêmera
Passa.
E não está sujeito a traça
Pois tem a proteção do inseticida.
Creia,
O meu poema está infenso à vida.

Claro, a vida é suja, a vida é dura.
E sobretudo insegura:

“Suspeito de atividades subversivas foi detido ontem o poeta Casimiro de Abreu.”
“A Fábrica de Fiação Camboa abriu falência e deixou
sem emprego uma centena de operários.”
“A adúltera Rosa Gonçalves, depondo na 3ª Vara de Família, afirmou descaradamente: ‘Traí ele, sim. O amor acaba, seu juiz.’”

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou

Era pouco? era muito?

Era uma fome azul e navalha uma vertigem de cabelos dentes cheiros que traspassam o metal e me impedem de viver ainda
Era pouco? Era louco, 
um mergulho
no fundo de tua seda aberta em flor embaixo 
onde eu morria

Branca e verde
branca e verde
branca branca branca branca 

E agora
recostada no divã da sala 

depois de tudo 
a poesia ri de mim

Ih, é preciso arrumar a casa
que André vai chegar
É preciso preparar o jantar
É preciso ir buscar o menino no colégio
lavar a roupa limpar a vidraça


O amor
(era muito? era pouco?
era calmo? era louco?) 
passa
A infância
passa
a ambulância
passa 


Só não passa, Ingrácia,
A tua grácia!

E pensar que nunca mais a terei
real e efêmera (na penumbra da tarde)
como a primavera


E pensar
que ela também vai se juntar
ao esqueleto das noites estreladas 
e dos perfumes que dentro de mim gravitam feito pó
(e um dia, claro, ao acender um cigarro
talvez se deflagre com o fogo do fósforo
seu sorriso entre meus dedos. E só).


Poesia – deter a vida com palavras?
Não – libertá-la,
fazê-la voz e fogo em nossa voz. Po-
esia – falar
o dia
acendê-lo do pó
abri-lo
como carne em cada sílaba, de-
flagrá-lo 
como bala em cada não 
como arma em cada mão

E súbito da calçada sobe
e explode
junto ao meu rosto o pás-saro? O pás?
Como chamá-lo? Pombo? Bomba? Prombo? Como?

Ele
bicava o chão há pouco
era um pombo mas 
súbito explode
em ajas brulhos zules bulha zalas 
e foge!
como chamá-lo? Pombo? 

Não: 
poesia, 
paixão
revolução

sexta-feira, 10 de maio de 2013

haikai

escrava
fico agarrada
à palavra




quinta-feira, 2 de maio de 2013

Chuva Interior

Um recado do genial Mario Chamie

Chuva Interior

Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.

Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.

Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.

Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.

Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

sábado, 27 de abril de 2013

Desassossegada

Talvez, ela seja só uma desassossegada
Pensa em fragmentos, muitas coisas, e tudo ao mesmo tempo
A vida prática se torna muito dura para quem sonha demais

Inclusive, porque, existe certo desânimo 
Para tirar algumas coisas das ideias e trazer aos dias físicos
Por vezes, se torna frustrante, inacabado

É engraçado e curioso como, apesar do sonho alimentar o homem de muitas sensações
É na realidade propriamente realizada, construída materialmente
Que aprendemos o valor que a realização material tem

Esta, talvez, seja apenas um caminho
Porque a realização imaginária das coisas também tem valor
Ela pode multiplicar-se, ser muitas, diversas, ilimitada

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Geografia


Com minha bagagem embarco 
Ora dura minutos, ora horas, ora dias 
Aterrisso como um turista morto de fome 

Em um ato antropofágico 
                       [Com mãos e boca] 
Caminho cada milímetro da sua geografia